
A Polícia Civil deflagrou, nesta quinta-feira (16), a Operação Lama de Ouro para investigar um esquema de desvio de fertilizantes de alto valor pertencentes a uma empresa localizada no município de Rio Grande. A ação resultou na prisão em flagrante de dois funcionários e na apreensão de aproximadamente 96 toneladas de produto.
O trabalho foi coordenado pela 9ª Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Rurais e Abigeato da Região Sul. A operação contou com o apoio da 1ª DECRAB de Bagé, da 3ª DECRAB de Camaquã e do Serviço de Inteligência e Análise Criminal vinculado à estrutura especializada de repressão aos crimes rurais.
Segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil, os presos trabalhavam na própria empresa investigada. Um deles exercia a função de supervisor de equipe e o outro atuava como operador de máquinas.
A investigação aponta que os suspeitos utilizavam o acesso às áreas internas, ao maquinário e aos galpões para retirar fertilizante puro e encobrir a carga com barro ou resíduos de baixo valor comercial.
Fertilizante era ocultado sob camada de barro
Conforme a apuração policial, a empresa mantinha uma área destinada às sobras e aos rejeitos resultantes de sua atividade. Esse material era composto principalmente por barro e resíduos com baixo valor de mercado.
Os investigadores sustentam que os envolvidos aproveitavam essa rotina para carregar os caminhões com fertilizante puro, avaliado em aproximadamente R$ 4 mil por tonelada. Depois, uma camada de barro era colocada sobre o produto para ocultar visualmente a carga.
Em outras ocasiões, conforme a Polícia Civil, o fertilizante era misturado aos rejeitos diretamente no pátio da empresa. O objetivo seria fazer com que o conteúdo dos caminhões aparentasse ser apenas resíduo industrial.
Os veículos deixavam o estabelecimento com notas fiscais e declarações correspondentes ao transporte de rejeitos ou barro. Esse tipo de material era comercializado legalmente pela empresa por aproximadamente R$ 80 a tonelada.
A diferença entre o valor do fertilizante puro e o preço declarado para os rejeitos permitia que cargas de alto valor fossem retiradas como se fossem materiais de baixa importância econômica.
Caminhões foram acompanhados após deixarem a empresa
A equipe da DECRAB já monitorava as atividades do grupo investigado. O acompanhamento incluiu análise de imagens de sistemas de vigilância e observação da movimentação realizada pelos funcionários.
Segundo a Polícia Civil, os investigadores registraram o momento em que o maquinário foi utilizado para preparar as cargas e ocultar o fertilizante sob uma camada de barro.
Depois que os caminhões deixaram as dependências da empresa com a declaração de que transportavam somente rejeitos, os policiais realizaram as abordagens em uma rodovia da região.
Durante a fiscalização, os agentes identificaram indícios de que a carga não correspondia apenas ao material descrito nos documentos apresentados.
Peritos foram acionados para realizar a coleta de amostras. Conforme a corporação, a análise confirmou a presença e a natureza do fertilizante de alto valor encontrado nos veículos.
As 96 toneladas foram apreendidas e permanecerão vinculadas ao procedimento policial enquanto forem realizados os levantamentos técnicos e administrativos necessários.
Dois funcionários foram presos em flagrante
Um supervisor de equipe e um operador de máquinas foram presos em flagrante durante a operação.
A Polícia Civil afirma que os dois teriam participação direta na preparação e na saída das cargas. A responsabilidade individual de cada investigado ainda deverá ser analisada durante o inquérito e, posteriormente, pelo Poder Judiciário.
Os suspeitos foram encaminhados para os procedimentos legais após a prisão. Eles terão direito à defesa e ao contraditório durante o andamento do processo.
A investigação deverá reunir imagens, documentos, registros internos, notas fiscais, depoimentos e os resultados dos exames periciais.
Também será apurada a possível participação de outros funcionários ou pessoas externas à empresa.
Prejuízo pode chegar a milhões de reais
A estimativa apresentada pela Polícia Civil indica que o esquema teria provocado prejuízo entre R$ 13 milhões e R$ 20 milhões somente em 2026.
Os investigadores também trabalham com a possibilidade de que mais de cinco mil toneladas de produtos tenham sido retiradas irregularmente ao longo do período analisado.
Os valores ainda poderão ser atualizados conforme o avanço da investigação, a análise dos registros de saída e a identificação das cargas relacionadas ao esquema.
Para calcular o prejuízo, será necessário comparar o volume efetivamente transportado, o valor de mercado do fertilizante e os valores declarados nos documentos utilizados para acompanhar os carregamentos.
A empresa prejudicada deverá fornecer informações adicionais sobre o estoque, a produção, as movimentações internas e os controles adotados para a liberação dos veículos.
Investigação procura receptadores
A próxima etapa do trabalho será direcionada à identificação dos possíveis compradores do fertilizante desviado.
A Polícia Civil suspeita da existência de uma rede de receptadores que adquiria o produto por valores muito inferiores aos praticados no mercado.
Os investigadores pretendem verificar quem recebia as cargas, como os pagamentos eram realizados e qual era o destino final do material.
Também será apurado se os compradores tinham conhecimento da origem ilícita dos produtos. A eventual responsabilização dependerá das provas reunidas durante o inquérito.
A análise poderá alcançar transportadores, intermediários, produtores, comerciantes ou empresas que tenham participado das negociações.
Operação envolveu unidades especializadas
A Operação Lama de Ouro foi conduzida por uma unidade especializada em crimes rurais e desvios relacionados a atividades do campo e da cadeia produtiva.
A participação das delegacias de Bagé e Camaquã ampliou o número de agentes empregados e permitiu o acompanhamento simultâneo de diferentes pontos relacionados à investigação.
O setor de inteligência auxiliou no cruzamento de dados, na análise dos registros e na identificação da movimentação considerada suspeita.
A Polícia Civil não informou, até o momento, se novas prisões ou buscas poderão ocorrer. O inquérito permanece em andamento e outros envolvidos poderão ser identificados.
Material apreendido será submetido a novos procedimentos
Embora as amostras iniciais tenham indicado a presença de fertilizante puro, a investigação deverá manter os procedimentos periciais necessários para documentar a composição, o volume e o valor do produto.
Os laudos serão incluídos no inquérito e poderão ser utilizados na eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público.
Os caminhões, registros de transporte e demais elementos relacionados à operação também poderão ser analisados para reconstruir a dinâmica das cargas.
A Polícia Civil busca determinar há quanto tempo o método era utilizado e quantas remessas podem ter sido retiradas da empresa de forma irregular.
A operação desta quinta-feira representa uma das etapas da investigação. A conclusão dependerá da análise de documentos, depoimentos, perícias e informações obtidas durante as abordagens.
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