
Escrita por Augusto Souza em 15 de abril de 2026.
Diante de uma modesta pizzaria, um rapaz de avental varria a calçada em frente, sem dar muita atenção às pessoas que passavam. Até que percebeu um homem se aproximando, como se quisesse puxar conversa. Era um senhor na casa dos sessenta anos, bem vestido, e que conduzia pela guia um dócil cão da raça cane corso.
— Buona tarde! — disse o homem, em um português carregado de sotaque estrangeiro. — Vocês abrem a que horas?
— Em menos de dez minutos — respondeu o rapaz, sorrindo. — Não deve demorar, só estamos terminando a limpeza. Se o senhor quiser aguardar…
— Não tenho pressa. Estou curioso para provar um pouco de tudo neste país.
— Não vai se decepcionar, temos ótimos sabores — garantiu o jovem, sem interromper o trabalho. — Há quanto tempo o senhor chegou ao Brasil?
— Vim de Milano ontem. Sempre ouvi falar bem do Brasil e resolvi conhecer. Parece um bom lugar para um recém-aposentado viver. E meu mascote — apontou para o cachorro — também pode aproveitar o clima.
O funcionário assentiu levemente, mas parecia um pouco desconfortável, algo que o estrangeiro percebeu.
— Algum problema?
— Nenhum. Só… o senhor se importaria com uma opinião sincera?
— Nem um pouco. Seja vero, per favore.
— Para alguém com um cachorro tão bonito, o senhor escolheu um país curioso.
— Oh, sì. Notei andando pelas ruas muitos cães abandonados e maltratados… uma situação triste. Mas imagino que as autoridades estejam cuidando disso.
— Talvez. O senhor já ouviu falar de Floripa?
— Sim, dizem que é uma das cidades mais desenvolvidas e prósperas do Brasil.
— Mesmo assim, há poucos meses um cachorro foi morto a pauladas lá.
— Dio mio! O dono deve ter ficado inconsolável…
— Na verdade, ele não tinha dono — explicou o rapaz. — Vivia em um abrigo na praia e era conhecido por turistas. Foi um choque para todos.
— Mas alguém deve ter sido responsabilizado por essa crueldade!
— Muitos viram, mas disseram que a investigação será arquivada por falta de provas.
— Como assim? Ninguém sabe o que aconteceu?
— Todo mundo e, ao mesmo tempo, ninguém.
— E a justiça?
— Continua com vendas nos olhos — respondeu o rapaz, dando de ombros.
— Absurdo! No entanto, imagino que as pessoas estejam ocupadas demais para cobrar atitudes do governo…
O italiano ficou ainda mais curioso.
— E os aposentados vivem bem aqui, vero? Passei por um prédio chamado “INSS”. Parece um órgão importante.
— É… em teoria cuida dos aposentados — explicou o rapaz. — Mas há casos de salários sendo desviados ao longo dos anos.
— Como assim? Falta organização?
— Não. Falta ética.
— E o governo não pune?
— Na verdade… é controlado por eles.
— Então que se chame a justiça!
— A justiça mandará arquivar.
— E os aposentados, como ficam?
O rapaz deu de ombros novamente. O italiano ficou em silêncio por um instante, como se tentasse processar tudo aquilo.
Segurou a guia do cachorro com mais firmeza.
— Depois de ouvir tudo isso, acho que até perdi o apetite. A pizza pode esperar.
— Falando em pizza — respondeu o rapaz — o senhor acabou de provar a primeira.

Sabor Brasil.














