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DOM PEDRO II FREQUENTOU O THEATRO SETE DE ABRIL DUAS VEZES NO SÉCULO XIX

O Theatro Sete de Abril, um dos espaços culturais mais importantes da história de Pelotas, guarda uma ligação direta com a memória do Brasil Imperial. No século XIX, o local recebeu a presença do imperador Dom Pedro II em duas oportunidades. Sua filha, a Princesa Isabel, também esteve no teatro em duas ocasiões, uma delas acompanhando o pai e outra ao lado do marido, o Conde D’Eu.

A história começa ainda na origem do próprio nome do teatro. O Theatro Sete de Abril foi inaugurado em 2 de dezembro de 1833. A escolha da data não foi por acaso: o dia 2 de dezembro marcava o aniversário de nascimento de Dom Pedro II, nascido em 1825. Já o nome “Sete de Abril” faz referência à data de 7 de abril de 1831, quando Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro e transferiu ao filho, ainda criança, o título de Imperador do Brasil.

A construção e a inauguração do teatro ocorreram em um período em que Pelotas ainda era uma freguesia e vivia forte expansão econômica ligada ao ciclo do charque. A riqueza gerada pelas charqueadas ajudou a financiar a vida social, cultural e urbana da cidade. Nesse contexto, o teatro surgiu como espaço de sociabilidade, lazer e prestígio para a elite local.

De acordo com o livro Sete de Abril: O teatro do imperador, de Klécio Santos, Pelotas tinha 10.873 habitantes quando o teatro foi financiado pela “fortuna que jorrava do charque”. Naquele período, havia poucas opções de diversão, e a arte dramática ocupava lugar de destaque entre os entretenimentos voltados à elite e à nobreza.

O Sete de Abril começou a ser construído em 1831. Embora tenha sido inaugurado oficialmente em 1833, as obras foram concluídas e o espaço passou a funcionar efetivamente para o público em 1834, data que aparece na fachada do prédio. Apenas onze anos depois, ocorreria a primeira visita imperial ao teatro.

Dom Pedro II esteve pela primeira vez em Pelotas entre os dias 1º e 10 de fevereiro de 1846. Na ocasião, o imperador tinha 20 anos e viajava acompanhado da esposa, a imperatriz Teresa Cristina. Há registros de que o casal participou de uma solenidade com homenagens no Theatro Sete de Abril e, em seguida, assistiu a um espetáculo de gala.

A programação daquela noite teria incluído apresentações teatrais e musicais. Conforme os registros históricos reunidos por Klécio Santos, o casal imperial também teria jantado no salão do teatro durante o intervalo das apresentações, reforçando o papel do espaço como ambiente de recepção oficial e celebração social.

A segunda passagem de Dom Pedro II por Pelotas ocorreu quase vinte anos depois, em outubro de 1865. Desta vez, o imperador esteve acompanhado da filha mais velha, a Princesa Isabel. A comitiva permaneceu na cidade por dois dias, e logo na primeira noite Dom Pedro II assistiu a um espetáculo no Theatro Sete de Abril.

Essa visita também ficou marcada por um detalhe curioso. Segundo os registros citados na obra, o camarote imperial teria sido pintado de vermelho para homenagear o monarca. A intenção era destacar o espaço reservado ao imperador, mas o resultado teria chamado atenção de forma negativa em uma crítica publicada na imprensa local. O tom encarnado teria escurecido o camarote, dificultando a visualização do perfil de Dom Pedro II.

A presença da Princesa Isabel na cidade em 1865 foi a primeira das duas oportunidades em que ela esteve vinculada ao Sete de Abril. Duas décadas depois, em 1885, ela retornaria ao teatro acompanhada do marido, o Conde D’Eu. Na ocasião, o casal assistiu a diversos espetáculos durante a passagem por Pelotas.

Essas visitas imperiais reforçam a importância do Theatro Sete de Abril na vida cultural e política da cidade. Mais do que um espaço de apresentações artísticas, o teatro também funcionava como local de encontros sociais, solenidades públicas, recepções oficiais e manifestações de prestígio da sociedade pelotense.

Na segunda metade do século XIX, Pelotas ocupava posição de destaque no cenário econômico do Rio Grande do Sul. A cidade era marcada pela força das charqueadas, pelo crescimento urbano e pela formação de uma elite que buscava aproximar-se dos modelos culturais e sociais dos grandes centros. O Theatro Sete de Abril tornou-se símbolo desse período.

A presença de figuras da família imperial no espaço mostra como Pelotas integrava o roteiro de atenção da monarquia brasileira. A cidade, mesmo distante da Corte, tinha relevância econômica, política e cultural suficiente para receber solenidades e visitas oficiais de grande importância.

O teatro também era um reflexo do modo como a cultura era vivida naquele tempo. As apresentações reuniam música, teatro, cerimônias e encontros sociais, sendo frequentadas por proprietários de camarotes, comerciantes, autoridades, religiosos, famílias influentes e membros da elite local.

Segundo os registros históricos, a primeira direção da Sociedade Scenica, responsável pela administração e pela programação da casa, era formada por proprietários de camarotes e cadeiras. Entre eles estavam charqueadores, ricos comerciantes, políticos, padres e viúvas, demonstrando a diversidade dos grupos que ajudaram a sustentar a vida cultural do espaço.

A ligação do Sete de Abril com Dom Pedro II também aparece de forma simbólica na própria identidade do prédio. O teatro nasceu homenageando o imperador ainda menino e, anos depois, receberia sua presença já como chefe do Império. Essa relação transformou o espaço em um dos marcos da memória imperial em Pelotas.

A visita da Princesa Isabel, em 1885, também ganha importância dentro desse contexto. Filha de Dom Pedro II e figura central da história brasileira, ela esteve no Theatro Sete de Abril ao lado do Conde D’Eu, reforçando novamente a ligação entre o prédio histórico e a família imperial.

Hoje, ao olhar para a trajetória do Sete de Abril, é possível perceber que o teatro não representa apenas um espaço de espetáculos. Ele guarda memórias da formação urbana de Pelotas, da economia do charque, das relações sociais do século XIX e da presença de personagens fundamentais da história do Brasil.

A história das visitas imperiais ao Theatro Sete de Abril ajuda a compreender a dimensão cultural e simbólica do prédio. Em suas paredes, camarotes e salões, passaram espetáculos, cerimônias, autoridades, artistas e públicos de diferentes gerações.

O retorno dessas memórias também reforça a importância da preservação do patrimônio histórico de Pelotas. O Sete de Abril segue sendo um dos grandes símbolos da cidade, reunindo passado, cultura, arquitetura e identidade local.

As passagens de Dom Pedro II e da Princesa Isabel pelo teatro permanecem como capítulos marcantes dessa trajetória. São registros que conectam Pelotas ao Brasil Imperial e mostram como a cidade teve papel relevante na vida cultural e social do país durante o século XIX.

Fonte: SANTOS, Klécio. Sete de Abril: O teatro do imperador. Porto Alegre: Libretos, 2012.

Fotos: reproduções totais ou parciais do livro Sete de Abril: O teatro do imperador, de Klécio Santos. Algumas imagens foram tratadas por IA para melhoria de definição e contraste.

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